Skip to content
Biografia Resumida

Biografia de Madame Satã

Madame Satã foi uma personalidade icônica do seu tempo, pelas condições adversas de sua vida e pela representatividade que adquiriu dentro do movimento LGBTQIA+.

A biografia de Madame Satã, portanto, pode servir como um pequeno “raio X sociológico” de um grupo de pessoas cujo sinônimo mais claro é “resistência”.

Se você leu a nossa biografia da travesti Cintura Fina, sem dúvidas, poderá encontrar alguns pontos em comum com a de Madame Satã.

Vamos lá…

Biografia de Madame Satã

A personalidade que ficou mais conhecida como “Madame Satã” chamava-se, na verdade, João Francisco dos Santos. Nasceu em Glória do Goitá, Pernambuco, no dia 25 de fevereiro de 1900.

Era filho de descendentes de escravos (Dona Firmina dos Santos e Seu Manoel Francisco dos Santos).

Com apenas 7 anos de idade, o menino João Francisco passou por um “escambo” traumático: foi trocado por uma égua (isso mesmo, uma égua!).

O motivo da troca era para que a mãe, que acabara de fica viúva, pudesse conseguir um meio de sustentar os outros irmãos de João. E não eram poucos: teve 17 irmãos!

O comprador do menino João prometeu que o educaria, mas isso não passou de uma promessa. Acabou sendo escravizado numa fazenda.

João iria passar por outra trapaça: fugiu para o Rio de Janeiro ao lado de uma senhora com a promessa de ter uma boa vida na capital carioca. O nome dessa mulher, por mais irônico que isso possa parecer, era Dona Felicidade

Mas, ao chegar no Rio, acabou sendo escravizado novamente. Foi forçado a trabalhar para “Dona Felicidade” como faxineiro, cozinheiro, carregador, entre outras labutas.

João Francisco não aceitou aquela vida e fugiu de novo, aos 13 anos. Foi morar na Lapa, um bairro que, naquela época, estava em franca expansão, tornando-se um reduto da boemia.

Há registros de que, na Lapa, João Francisco tentou trabalhar honestamente, mas acabou cedendo à sedução da malandragem. E teve uma espécie de “professor do que não presta” que contribuiu para isso, alguém conhecido pela alcunha de “Sete-Coroas”.

Anos mais tarde, já com 23 anos, João já tinha uma certa má fama, tempo em que passou a ser conhecido pelo apelido de “Caranguejo”.

O motivo da alcunha era o soco de esquerda potente que tinha e a sua predileção por frequentar a Praia das Virtudes. O local era apreciado por João porque ele podia treinar natação e ganhar o tônus muscular necessário para poder fugir da polícia

João conheceu também o teatro nessa época e a carreira artística mudaria parte do rumo de sua vida.

Primeira prisão

No ano de 1928, João Francisco encontrou um vigilante num boteco e esse sujeito, por algum motivo, o provocou. Arranjou uma arma (pistola) e atirou nesse indivíduo.

Depois dessa confusão, João foi condenado pela Justiça. Teve que cumprir pena de mais de dois anos no presídio da Ilha Grande. Começava ali a sua fase no âmbito da marginalidade.

Conseguiu absolvição dessa condenação após dois anos. Alegou que agiu por legítima defesa. Mas não se regenerou, apesar dessa liberdade.

Pelo contrário, cometeu diversos outros crimes.

Ficha corrida de Madame Satã

O transformista se envolveu em diversas encrencas policiais depois daquela primeira “experiência” como presidiário.

Sua ficha corrida foi composta por outros 29 processos judiciais:

  • 3 homicídios;
  • 2 furtos;
  • 3 desacatos;
  • 13 agressões;
  • 4 resistências à prisão;
  • 1 ultraje ao pudor;
  • 1 processo por porte de arma.

A lista de crimes não se encerra nesses que listamos, mas já é significativa.

Com isso, ele foi condenado em 10 processos e cumpriu – com intervalos – quase três décadas de prisão (27 anos e 8 meses).

O apelido famoso: Madame Satã

O apelido famoso, Madame Satã, começou a ser propagado em 1938 do século passado, mais precisamente, no carnaval daquele ano.

O nome surgiu a partir do traje usado por João Francisco nesse desfile carnavalesco. Era uma fantasia dourada, com aparência de um morcego.

A fantasia ficou notória, mas após a folia tanto João quanto seus amigos foram encaminhados para a delegacia.

Conta-se que o delegado quis saber o nome de cada suspeito e, como João se recusou a pronunciar seu nome, acabou sendo apelidado pelo delegado de “Madame Satã“.

Morte de Madame Satã

Apesar de ser homossexual (e de assumir essa opção), João Francisco também teve relacionamento heterossexual duradouro.

Ele se casou com Maria Faissal (que já tinha filhos) aos 34 anos, tendo criado e educado os filhos dessa mulher.

Sua morte se deu em 1976, vítima de um câncer pulmonar. Dois meses antes do trágico acontecimento, Madame foi encontrada por Jaguar e outros amigos em estado de indigência, internada no Hospital de Ilha Grande, em Angra dos Reis.

No final da vida, Satã buscou ter uma vida comum, atuando como cozinheiro de eventos diversos. O seu último desejo foi ser enterrado com o seu chapéu panamá, além de duas rosas vermelhas em cima do caixão.

Dissemos no começo desta biografia que o teatro mudaria parte do rumo da vida de Madame Satã.

O fato é que o reconhecimento artístico de João Francisco foi meio tardio: aconteceu em 1974, já quase no final da vida.

Nesse ano ele apresentou-se com a peça “Lampião do Inferno”. Adivinha qual personagem ele interpretou?

Por ironia do destino ou um desses acasos estranhos, ele representou Satanás, ao lado de ninguém menos do que Elba Ramalho e Tânia Alves.

Primeira travesti artista do Brasil

Além de todas as condições de vida já apresentadas nesta biografia resumida (era preto, pobre, fujão, resistente, marginal ou malandro, pai, excelente cozinheiro e bom de briga), Madame Satã representa um outro marco importante.

Ele é considerado por estudiosos do movimento a primeira travesti artista do Brasil.

Rogério Durst afirma na biografia “Madame Satã: Com o diabo no corpo” o seguinte:

[Madame Satã] cuidava para que as putas, as bichas e os moleques da Lapa não sofressem perseguição. Pouca coisa acontecia na região sem seu conhecimento ou sua permissão.

João Francisco demonstrou seu lado protetor até o final da vida.

Chegou a abrir na Lapa uma pensão para que suas amigas profissionais do sexo pudessem – literalmente – dormir (descansar mesmo).

Mas acabou sendo preso por esse motivo também. Para a Polícia, uma pensão cheia de prostitutas necessariamente teria que ter prostituição.

Ele foi preso dessa vez, não por ter aberto o dormitório para as amigas, mas por ter revidado a agressão física da polícia.

Em um registro processual de Madame Satã, datado de 1932, encontra-se a seguinte descrição do nosso transformista negro:

Desordeiro. Pederasta passivo. Usa suas sobrancelhas raspadas e adota atitudes femininas, alterando até a própria voz. Não tem religião alguma. Fuma, joga e é dado ao vício da embriaguez. Exprime-se com dificuldade e intercala, em sua conversa, palavras da gíria de seu ambiente. É de pouca inteligência. Não gosta do convívio da sociedade por ver que esta o repele, dados seus vícios. É visto sempre entre pederastas, prostitutas, proxenetas e outras pessoas do mais baixo nível social. Inteiramente nocivo à sociedade.

Madame Satã: o filme

Quem se interessa pela vida de João Francisco (e, por extensão, pela resistência do movimento LGBTQIA+ no Brasil) não pode deixar de assistir a sua cinebiografia.

O filme foi intitulado adequadamente de “Madame Satã”. Ele foi estrelado pelo ator Lázaro Ramos e grande elenco, em 2002, com direção de Karim Aïnouz.

Em um artigo do historiador James N. Green, notório estudioso de assuntos ligados à memória LGBTQIA+ no Brasil, há um pedaço de um depoimento do próprio João Francisco.

Citando esse trecho, nós encerramos esta biografia resumida do transformista multifacetado:

Essa mania da polícia chegar, bater e começar a fazer covardia, eu levantava e pedia a eles pra não fazer isso. Afinal de contas, se o sujeito estiver errado, eles que prendam, botem na cadeia, processem, tá certo. Agora, bater no meio da rua fica ridículo. Afinal, nós somos seres humanos

Quer saber mais sobre Madame Satã? Conheça a matéria completa dedicada ao legado de Satã publicada pela Revista Híbrida.

Edição: Alberto Vicente (Jornalista, graduado em Letras pela UEFS)