Lenda do Barba Ruiva

Folclore é o conjunto de tradições populares formadas por lendas, mitos, costumes e manifestações culturais locais passadas entre gerações, sendo que a expressão possui origem inglesa, “folklore”, cujo significado é “sabedoria popular”.

O folclore brasileiro é extremamente rico e possui características que se diferenciam entre si pelos personagens, histórias, assim como presença de outros personagens míticos advindos de diversas religiões e às suas lições de moral.

Em razão do extenso território nacional, as lendas do folclore brasileiro sofrem influência das regiões e costumes das quais elas advêm, além de influência de culturas trazidas por estrangeiros que migraram ao país.

Dentre as histórias que se destacam no imaginário brasileiro está a lenda do Barba Ruiva, originada no norte brasileiro e que até hoje é lembrada, contada e festejada nesta região.

A seguir iremos conhecer a fundo esta lenda, sua origem e influências, as alternâncias de seu enredo e as principais características que permeiam o imaginário popular.

A lenda

A lenda do Barba Ruiva conta a história de uma criança advinda de uma família formada por três irmãs e sua mãe viúva que viviam na próximo à Lagoa de Paranaguá, no Piauí.

Conta-se que a caçula das filhas desta viúva adoeceu e passou a se sentir triste e pensativa. Após algum tempo, descobriu-se que isto ocorria não em razão de uma doença, mas por uma gravidez não programada.

A moça, envergonhada em razão de sua situação gravídica frente ao fato de não ser casada e da ausência do pai da criança gerada, decidiu com muita dor abandonar seu filho, nascido nas matas da região.

A solução encontrada pela jovem foi deixá-lo no lago que se localizava próximo à sua moradia logo após o nascimento dele. 

O garoto recém-nascido foi colocado, então, em um tacho de metal por sua jovem mãe que jogou o recipiente nas águas da lagoa, esperando que lá se afogasse e descansasse eternamente. 

Contudo, Iara, a guardiã das águas, assistiu todo aquele gesto com raiva e indignação. Sua ira causou a inundação da lagoa e uma enchente que cobriu toda a região, inundando casas e a mata e tornando a lagoa grandiosa.

Passado algum tempo desta inundação os moradores da região passaram a ouvir o choro de uma criança que parecia vir do fundo das águas da lagoa, o que foi sucedido pela aparição constante de uma criança na beira da lagoa.

Entretanto, a criança que era vista pela manhã dava lugar a um homem de cabelos e barbas ruivas pela tarde e, à noite, pela presença de um homem idoso cuja coloração dos pêlos e das madeixas era branca.

Dizem que o Barba Ruiva, embora não ataque de forma violenta ninguém, procura sempre abraçar e beijar as mulheres que vão até a beira da lagoa, ao mesmo tempo em que foge dos homens que, quando o encontram, ficam desnorteados.

Esta perseguição afetuosa feita por Barba Ruiva em busca de mulheres faz com que nenhuma mulher da região se arrisque a banhar-se ou lavar roupa nas águas doces da lagoa sozinha.

Dos homens o Barba Ruiva foge e, quando os encontra, deixa-os desorientados. As tentativas de se aproximar das mulheres, por outro lado, ocorrem pela busca da quebra de seu encantamento, nele lançado por Iara após seu nascimento.

Este encantamento é responsável pelas alterações físicas do Barba Ruiva ao longo do dia e seria possível de ser quebrado caso uma mulher jogue em sua cabeça água benta, o que o libertará da sua sina e permitirá que ele viva uma vida normal.

Versões da história

A história  do Barba Ruiva possui diversas variações que trazem informações e detalhes da história que destoam entre si. Na sequência vamos conhecer as principais variações desta história.

O pai do menino

Em algumas versões desta história o pai do menino que viria a ser o Barba Ruiva simplesmente abandonou sua namorada grávida e desapareceu pelo mundo. Já em outras a jovem gestante descobre seu estado gravídico após a morte do seu amado.

O abandono

O episódio concernente ao abandono da pequena criança recém-nascida também varia. Em algumas versões a mãe o apoia em uma bandeja de prata que é lançada sobre a lagoa.

Outras versões, entretanto, citam que a jovem teria colocado a criança em uma espécie de bacia que foi mergulhada na água, na tentativa de afogamento do bebê, a qual foi lançada de volta por Iara em sua ira perante o infanticídio.

O Barba Ruiva

Enquanto nas versões mais famosas o Barba Ruiva tenta se aproximar das mulheres, em outras ele simplesmente corresponde a um personagem que toma sol à beira da lagoa para a qual retorna ao perceber aproximações humanas.

Origem da lenda do Barba Ruiva

Estima-se que a lenda do Barba Ruiva tenha surgido no século XIX no estado do Piauí, onde a história se passa, misturando elementos de origem indígena e portuguesa.

Influências religiosas

A lenda do Barba Ruiva também possui claras influências de ordem religiosa.

Primeiramente, Iara, a protetora das águas que lança o encantamento nas águas da lagoa, que transbordam, e no menino, que é protegido da morte, mas que fica preso ao local e às transformações físicas diárias, corresponde à famosa sereia.

Já a forma de desencantamento do Barba Ruiva, ligado à água benta, remete diretamente às religiões cristãs e principalmente à católica, principal religião de Portugal e que foi disseminada pelos europeus no território brasileiro.

Moral da história

As históricas folclóricas geralmente trazem, além de seres mágicos e encantadores, lições de moral e com a lenda do Barba Ruiva isto não é diferente.

É possível se extrair deste conto repressões contra o abandono e até mesmo contra a quebra da castidade anteriormente ao matrimônio. 

Além disto, a quebra de encantamento pelo uso de água benta pretende impor a visão de que a salvação dos homens pagãos pode ocorrer por meio da conversão deles à fé cristã.

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