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Biografia Resumida

Biografia de Cintura Fina: memória da resistência LGBTQIA+

Cintura Fina é o nome de uma conhecida travesti brasileira que viveu na cidade de Belo Horizonte por volta das décadas de 1950 a 1970. Sua história foi resgatada em 2021, com a publicação da biografia escrita pelo Doutor em Literatura pela UFMG, Luiz Morando.

A partir do resgate dessa história, o autor acaba resgatando também um pouco da chamada memória LGBTQIA+ de Belo Horizonte, Minas Gerais.

Cintura Fina também ficou conhecida em sua época por outras alcunhas. As principais foram: Marilyn Monroe dos detentos, Anormal, Useiro e Vezeiro no uso da navalha, Refinado Malandro, Pederasta, Meliante. Larápio, Gatuno, Invertido Sexual e Famigerado Travesti.

Abaixo você confere um resumo generoso da biografia de Cintura Fina, elaborada a partir das pesquisas empreendidas por Luiz Morando, seu biógrafo fundamental.

Biografia de Cintura Fina: vida de ocorrências policiais

A travesti Cintura Fina nasceu na cidade de Fortaleza, Ceará, no ano de 1933 e chegou a Belo Horizonte por volta do ano de 1953, quando então tinha 20 anos de idade.

Passou uma grande parte da vida cometendo alguns delitos. Na década de 50 sua área de maior circulação eram a rua Guaiacurus e os arredores do Hotel América. Ou seja, se fixou na zona de prostituição da capital mineira, onde atuou como trabalhadora do sexo.

Desde os primeiros meses de estadia em BH já cometia delitos. Por exemplo, entre julho de 1953 e janeiro de 1954 tinha se envolvido em uma ocorrência de lesão corporal.

Cintura Fina, a partir de então, passa diversas vezes por ocorrências policiais. Entre 20 de dezembro de 1953 e 24 de outubro de 1956 foi conduzida nada menos do que sete vezes à Polícia. E por quais alegações?

Uma vez foi por escândalo, duas vezes por pederastia e quatro vezes por vadiagem, crimes comuns naquela época. Em uma dessas vezes, conta Luiz Morando, o objeto da prisão se tornou ação criminal.

Quando a barra dela estava pesando demais na cidade de Belo Horizonte, Cintura Fina decidiu ir para o Rio de Janeiro. Mas, chegando lá, apenas repete o comportamento que a leva para prisões ou o registro de mais ocorrências.

Entre setembro de 1954 e maio de 1955 e entre junho de 1957 a outubro de 1959, no Rio de Janeiro, ela se envolve em duas ocorrências e acaba sendo levada para o Presídio de Ilha Grande.

Nesse presídio do Rio ela conhece outra famosa personalidade: Madame Satã.

É nesse período, mais para o final da década de 1950 que Cintura Fina também começa a ser reconhecida como protetora das trabalhadoras do sexo.

A foto que inserimos abaixo foi tirada em uma dessas ocorrências policiais e destaca a cor negra de Cintura Fina:

Biografia da travesti Cintura Fina
Cintura Fina. Foto: Reprodução: Jornal Hoje em Dia

Biografia de Cintura Fina: arma e retorno a BH

Cintura Fina causou várias agressões sem fazer uso de armas de fogo. Seu principal artefato era uma navalha. Os relatos históricos indicam que esse instrumento era extremamente bem manuseado pela travesti.

Naquela época, portar uma navalha era algo corriqueiro, principalmente no ambiente de prostituição, posto que era usada como arma de defesa pessoal.

Luiz Morando, seu biógrafo, afirma que a imagem de Cintura Fina começou a ser formada nos anos 1950, mas consolida-se na década seguinte. A figura de Cintura Fina passa a ser associada à uma pessoa forte, firme, resistente, mas também agressiva.

A travesti retornou para Belo Horizonte em novembro de 1959 e lá permanece até por volta de 1967 ou 1968. Nessa época, sua área de maior circulação era a rua Mauá e as imediações da Lagoinha e Bonfim.

Na capital mineira volta a se envolver nas típicas ocorrências que perseguiram grande parte de sua vida: roubos, agressões, vadiagens. Mesmo assim continua sendo considerada como protetora das trabalhadoras do sexo.

De 1969 a 1972, Cintura Fina faz uma terceira incursão no Rio de Janeiro e cumpre outra pena no Presídio de Ilha Grande.

Umbanda, roubos, costura e regeneração

Retornou a BH novamente em 1972 e passou a transitar entre Belo Horizonte e Uberaba.

Em 1973 ela conseguiu um trabalho como alfaiate na Confecções Martins.

Nesse período converteu-se ao Umbandismo, passando a ser filho de Xangô e Omulu.

Por volta de 1975, já residindo no Morro do Querosene, envolve-se novamente em crimes. Dessa vez, faz receptação de peças roubadas, embora alegasse que se regenerou.

Cintura Fina tenta, então, se afastar da imagem de briguenta e criminosa. Inclusive, chega a pedir, nessa época, que não a chamassem mais de Cintura Fina.

Na época em que se tornou alfaiate, chega a dizer em entrevista que Cintura Fina era o irmão dela e que seu nome era José de Arimatéia.

De acordo com o que Luiz Morando apurou, Cintura Fina era uma exímia costureira.

Quanto ao seu comportamento, há também relatos orais dando conta de que a travesti tinha um lado amoroso, amigável, mas que não aturava levar desaforo para casa.